sábado, 11 de setembro de 2010

O Caso Vital

Poucos já se recordarão, mas em 1948, há cerca de 62 anos, o Atlético Clube de Portugal cortou relações com o Futebol Clube do Porto, naquele que ficou conhecido como o “Caso Vital”.
Eduardo Martins Vital era jogador do Atlético, avançado. Tinha vindo para o Atlético devido à necessidade de o Clube sentir em reforçar a sua equipa principal, numa época em que o Presidente da Direcção era o Capitão Alcino Júlio Pires. Assim, foi através do Presidente da Direcção que foram estabelecidos contactos com os “Onze Unidos do Montijo” afim de assegurar a transferência de dois jogadores: Vital e Caninhas.

Para o caso interessa-nos agora, e somente, Vital.

Os números das duas transferências fazem-nos actualmente sorrir, mas os aldegalenses receberam do Atlético, pelos dois jogadores, a quantia, considerável para a época, de trinta mil escudos, isto é; 150 euros na moeda actual. Vital recebeu ainda um prémio de transferência no valor de vinte e cinco mil escudos, pago pelo Atlético, do qual assinou recibo, que certamente ainda estará nos arquivos da Tapadinha. Tudo legal e no enquadramento da Lei vigente naquela época.

Durante a época de 1947-1948, os dois jogadores, Caninhas e Vital, foram autores de excelentes exibições e atraíram as atenções gerais, sobretudo Vital, que pelo seu posicionamento em campo, na linha avançada, originou um festival de futebol e golos. Vital é ainda hoje o detentor do record do jogador que mais golos marcou, num só jogo e na 1ª Divisão, pelo Atlético: seis, num fantástico e épico Atlético – Olhanense cujo resultado foi 10-4.

Esta situação atraiu naturalmente a cobiça de terceiros clubes que tentara de alguma forma aliciar o jogador para mudar de camisola. Assim, durante o ano de 1948 um clube com quem o Atlético mantinha as melhores e cordiais relações começou a cobiçar de forma inequívoca o jogador. Esse clube, à época da mesma dimensão do Atlético, era o Futebol Clube do Porto. A situação foi tal que a determinada altura toda a imprensa desportiva alardeava o interesse dos portistas em Vital. Começou a estalar o verniz, quando, evidentemente, foi publicado que Vital haveria recebido, do Futebol Clube do Porto, um sinal de dez mil escudos, como prova evidente dos nortenhos.

A notícia indignou a Direcção do Atlético que quis tirar a limpo, junto do jogador, o que se passava.
Vital tudo negou e redigiu um texto que assinou e que cuja transcriçaõ na íntegra é a seguinte:

“Declaro por minha honra de que não recebi dinheiro algum de qualquer director do Futebol Clube do Porto, e que não desejo mudar futebol por qualquer outro clube que não seja o Atlético Clube de Portugal. Tudo o que se disse sobre uma possível transferência minha para qualquer outro clube, é falsa.”

Este documento foi reconhecido notarialmente no cartório do Dr. Féria Theotónio. Em Lisboa, a 28 de Maio de 1948.

Se calhar até falava verdade, pelo que se passou a seguir poderemos imaginar que o dinheiro veio pelas mãos do roupeiro, por exemplo, e não de nenhum director portista, e os desejos mudam-se, como se sabe.
Apesar do formal desmentido de Eduardo vital, os boatos foram-se avolumando e a 15 de Junho de 1948, o Atlético envia um ofício ao Futebol Clube do Porto perguntando se teria havido, da parte de alguém afecto àquele clube. Alguma aproximação ou aliciamento ao jogador Eduardo Vital. Na Tapadinha ainda hoje se aguarda a resposta a esse ofício…
O silêncio da Direcção do Futebol Clube do Porto foi interpretado em Alcântara como se algo estivesse evidentemente a passar. Assim, como precaução, a Direcção do Capitão Pires endereçou a 22 de Junho, ao sr. Director Geral dos Desportos, um oficio pondo-o ao corrente das manobras revoltantes que o Futebol Clube do Porto estaria a efectuar a fim de contar com o concurso do jogador Vital. Para além disso, a 7 de Julho de 1948, o Atlético volta a endereçar à direcção portista, liderada por Cesário bonito, novo ofício, confirmando o anterior, que torna a não obter resposta.
Dias depois confirmava-se: apesar do documento assinado, sob compromisso de honra, que para Vital teria um valor que poderemos considerar como simbólico, o jogador pedia a sua transferência para o Futebol Clube do Porto, ao abrigo do Decreto 32946, artº 32º, §1º, que estabelecia a possibilidade dessa transferência se o Atleta fosse ocupar profissionalmente um lugar na função pública fora da área do clube que representava.
Só que esse emprego era hipotético e na repartição de finanças do Porto nunca ninguém soube quem era o servente Vital, como veremos.
O Atlético Clube de Portugal esperou serenamente os acontecimentos, já que considerava a questão da ocupação de cargo público uma farsa, e assim o considerou, efectivamente, o sr. Director Geral dos Desportos que indeferiu o pedido.
Assim que se soube do despacho do sr. Director Geral dos Desportos, o jogador Vital, que já se encontrava na cidade invicta, regressou a Lisboa e apresentou-se na Tapadinha, voltando inclusive a alinhar pelo Atlético na festa de homenagem que se fizera naquela época a Carlos Canuto, o grande fundador do Carcavelinhos, em jogo que opôs o atlético ao Benfica.

Vital, uma vez na capital, endereçou a 4 de Setembro uma carta ao sr. Ministro da educação Nacional, pedindo a anulação da transferência. Tudo parecia ter voltado á normalidade.
Pura ilusão, porém. A 7 de Setembro de 1948, porém, um volte-face surpreendente. O Atlético recebe o ofício nº 0/402, da federação portuguesa de Futebol, com o seguinte teor:

“Levo ao conhecimento de vª Exª que Sua Excelência o Ministro da Educação Nacional, por seu despacho de 4 do corrente, determina que se considera transferido para o Futebol Clube do Porto, desde a data da sua nomeação para o Porto, o jogador Eduardo Martins Vital.”

Na mesma data, a 7 de Setembro, o jogador Vital remeteu ao Ministro das Finanças o documento que passamos a transcrever:

“Eduardo Martins Vital vem por este meio, para os devidos efeitos, declarar a Vossa Excelência, que desiste do lugar de servente da Repartição de Finanças do Distrito do Porto, pelo que roga a Vª Exª se digne mandar cancelar a sua nomeação.”

Apesar do pedido de anulação de transferência subscrito pelo jogador Vital, a 14 de Setembro, o jogador recebe da Federação Portuguesa de Futebol o seguinte e singular ofício:

“Para seu conhecimento e devidos efeitos, abaixo se transcreve o teor do despacho exarado por Sua Excelência o Ministro da Educação Nacional, no requerimento de anulação do seu pedido de transferência para o Futebol C. do Porto: «Indeferido. Esta pretensão corresponde a um novo pedido de transferência para Lisboa apresentado extemporaneamente, visto o interessado já estar transferido para o Porto, embora sob a condição da sua nomeação para um lugar público».”

É evidente que o Ministro, Fernando Andrade Pires de Lima, ignorou o despacho do Director-Geral dos Desportos, algo só possível graças ao regime corporativista em que se vivia.
Naturalmente o que salta à vista é que a trama foi bem feita, e se é notável a rapidez com que despachavam os Ministros do Estado Novo, coisa que não se consegue hoje, apesar das tecnologias emergentes, também se concebe que a carta de Vital ao Ministro seria o “sinal” que iria despoletar que o resultado desta trama fosse desfavorável ao Atlético.
Portanto, Vital foi transferido para o Futebol Clube do Porto porque ia trabalhar como servente na repartição de finanças daquela cidade, mas desistiu do lugar no dia em que a transferência foi consumada. Obviamente “pornográfico”!

No entanto, o Atlético não desarmou, embora soubesse que as forças em confronto eram desiguais, sabendo da razão que lhe assistia. Assim, efectuou uma larga exposição ao Ministro explanado as “aventuras” do jogador Vital e o comportamento da direcção do Futebol Clube do Porto. Claro que era óbvio que portistas e Ministro estavam conluiados pelo que as esperanças eram reduzidas.
O resultado da explanação do Atlético ao ministro foi insólito, estado Novo no “seu melhor”. Em resposta, o Ministério mandou instaurar um inquérito a jogador Vital, por comportamento incorrecto, tendo a Federação Portuguesa de Futebol nomeado inquiridor (ou será inquisidor?) Manuel Cachulo da Trindade, então Secretário-Adjunto da associação de futebol de Coimbra.

Na sequência, em reunião extraordinária de Direcção, a 19 de Setembro de 1948, eram cortadas relações desportivas com o Futebol Clube do Porto, tendo a mesma Direcção, nessa data, demitindo-se colectivamente, mostrando não serem tão apegados ao lugar como outras direcções de clubes actuais.

Resta recordar que todo este processo acabou por não ser benéfico para as partes envolvidas. O Atlético perdeu um excelente jogador, Vital viu a sua carreira ensombrada e nunca chegou a brilhar no Futebol Clube do Porto, e o FC Porto não tirou grande proveito do jogador… ou será que contratou para desfalcar?

Para concluir, relembremos que este corte de relações durou alguns anos. Na época de 1954-1955 o Sport Lisboa e Benfica serviu de intermediário na reaproximação dos dois emblemas, tendo tudo ficado resolvido a 30 de Janeiro de 1955 quando, para selar a reconciliação, se disputou na Tapadinha um amigável Atlético – FC Porto. Em disputa estava a Taça Reconciliação que acabou por ficar em Alcântara já que o Atlético ganhou por 4-1, com hat-trick de Henrique Ben David e mais um golo de Castíglia.

Há ainda uma história deliciosa relacionada como Caso vital e que remonta a 1952, o ano em que o Futebol Clube do Porto inaugurou o defunto Estádio das Antas, a 28 de Maio, feriado da Revolução Nacional, como se dizia à época.
Basicamente, para a inauguração do seu estádio, o Futebol Clube do Porto achou por bem que este fosse ornamentado com as bandeiras de todos os clubes que à época militavam na 1ª Divisão, mas havia um problema que era o facto de FC Porto e Atlético estarem de relações cortadas. Ainda assim, a Direcção do Futebol Clube do Porto enviou um ofício à Tapadinha a requisitar a cedência da Bandeira para ornamentar o Estádio das Antas durante a inauguração.
Formalmente, o Atlético informou o Futebol Clube do Porto que estavam de relações cortadas com o clube e que, logicamente, não podia aceder ao pedido.
Mas na verdade é que, ao que se sabe hoje, dentro do FC Porto não havia qualquer animosidade com o Atlético. Então, a Direcção do FC Porto resolveu simplesmente mandar fazer uma bandeira igual à do Atlético. Ou seja, mesmo de relações cortadas o FC Porto desfraldou a bandeira do Atlético no dia da inauguração do Estádio das Antas. Conforme cita o jornal “O Porto”, ao relembrar o episódio, em 1955, a propósito da reconciliação: “(…) a sua linda bandeira flutuou ao vento. Esteve erguida à frente de toda a gente num dos mastros de honra das Antas e recebeu, ao ser erguida, o aplauso de 50 mil pessoas!”
Ao que parece, Atlético Clube de Portugal e Futebol Clube do Porto estavam de relações cortadas mas não eram inimigos. Que diferentes eram aqueles tempos, quando comparados aos de hoje.

Infelizmente não nos foi possível localizar qualquer imagem de Eduardo Martins Vital.

Texto: Nuno Almeida
Pesquisa: Vítor Rodrigues
(todos os direitos reservados)

4 comentários:

  1. O senhor deve ter uns arquivos incriveis.. onde diabo arranja toda essa informação. Parabéns!

    Miguel Severino
    Um adepto do Futebol Clube do Porto

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  2. Foi com alguma emoção que li o relato da Taça
    Reconciliação a que eu assisti num dia chuvoso
    já lá vão 55 anos , grande equipa que tinha o Atlético naquela época , recordo-me também que o guarda redes do F.C.Porto se lesionou e foi para a baliza o guarda redes suplente do Atlético . Cumprimentos

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  3. Obrigado por este pequeno artigo sobre o caso do meu avô!

    Pedro Eduardo Vital Oliveira Vidigal

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  4. 58 jogos 38 golos, acho que brilhou no FCP, digo eu não sei....
    Confirmo também que foi funcionário da CM do Porto.

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